quarta-feira, 8 de julho de 2015

Cerveja em lata de alumínio já completou 25 anos no Brasil


Marcio Beck
imagens: Acervo O GLOBO

A cerveja em lata de alumínio chegou com estardalhaço no mercado brasileiro em dezembro de 1989, quase três décadas depois de ter surgido, nos Estados Unidos. Em 25 anos, o caminho para conquistar o público foi árduo, mas frutífero: a embalagem representou 41,4% dos 13,4 bilhões de litros de cerveja vendidos no Brasil no ano passado. A lata foi o único tipo de embalagem cuja produção cresceu em 2013, na comparação com o ano anterior. Teve alta de 4,8%, de 5,32 milhões de litros para 5,58 milhões de litros, enquanto garrafas de vidro 600ml caíram 6,4% (7,95 milhões para 7,44 milhões) e garrafas de vidro one-way 330 ml recuaram 4% (4,62 milhões para 4,43 milhões de litros).

Sua presença maciça, hoje em dia, é um símbolo da aceitação do público, obtida após alguns anos de desconfiança por parte dos consumidores. A lata de alumínio foi vista, inicialmente, de forma negativa, apesar de prometer resolver os problemas apresentados por sua antecessora, a lata de folha de flandres (composto de ferro, aço e estanho), que interferia no aroma e no sabor da bebida, segundo o relato de bebedores de cerveja veteranos.

A salvação delas, quem diria, veio por meio da popularização do formato "latão", que traz 473 ml (equivalente a um pint americano) em vez dos tradicionais 355 ml da lata e dos 600 ml da garrafa de vidro. O preço acessível dos latões colaborou para que muitos consumidores fossem confrontados com a necessidade de rever sua opinião em relação às latas. Praticamente inertes à bebida, elas mostraram que não prejudicavam a experiência cervejeira e têm a vantagem de resfriar mais rápido (ainda que acompanhada da desvantagem de esquentar mais depressa também).

Ainda há quem as discrimine, na maioria das vezes, por falta de uma informação fundamental: se você quer o bem da cerveja, confie no invólucro que a proteja 100% do contato com seus arquiinimigos, os raios ultravioleta. No caso dos invólucros metálicos, não resta dúvida que protegem mais do que as garrafas de vidro, não importando quão escuras estas sejam (quanto mais claras, mais a cerveja sofre). Os raios ultravioleta, se tiverem contato com a bebida, reagem com os resíduos do lúpulo (planta que é a principal responsável pelo amargor), provocando aroma e sabor conhecidos lá fora como "skunk", ou seja... de gambá.

As primeiras informações sobre a novidade no Acervo O GLOBO, de acordo com uma pesquisa que realizei nos últimos meses, foram trazidas por uma reportagem curta, sem assinatura do repórter, publicada em 11 de novembro de 1989, com o título: Skol agita verão com cerveja em lata de alumínio.

Desenvolvidas pela Reynolds Aluminum, as novas latas tinham um terço do peso das antecessoras: 17 gramas cada, contra 51 gramas das feitas com folha de flandres. Além de bem mais leves, um ponto importantíssimo: não enferrujavam. Até o anel que permitia a abertura da lata foi redesenhado, para não ser mais destacável (stay on). O canto da sereia da ecologia, um discurso ainda incipiente na publicidade, também aparecia: eram 100% recicláveis.

Fruto de um consórcio internacional de cervejarias, cuja produção é licenciada para diferentes empresas no mundo, a Skol também fora pioneira no lançamento da folha de flandres, duas décadas antes. Havia entrado no portfólio da Brahma em 1980, e era produzida em quatro estados (Rio, São Paulo, Minas e Paraná), além do Distrito Federal.

Em 30 de novembro, O GLOBO noticiou que a Reynolds estava sendo financiada por três bancos – Bradesco, Banco Francês e Brasileiro (BFB) e Credibanco – com 65% dos US$ 75,8 milhões investidos na Latas de Alumínio S.A. (Latasa), que iniciara produção naquele mês em Pouso Alegre (MG). A previsão era de 800 milhões de unidades fossem produzidas anualmente, para o mercado de bebidas gaseificadas, que abrangia as cervejas e refrigerantes.

Mal iniciava a produção, a Latasa já se comprometia (1/12/1989) a duplicá-la; seria necessário, para poder abraçar as demandas do restante do setor cervejeiro. À época, duas fábricas – Rheem e Matarazzo – produziam latas de folha de flandres no Brasil, que representavam um mercado de 1 bilhão de unidades, responsáveis por 2,5% do consumo nacional da bebida. De acordo com o colunista de economia George Vidor (edição de 2/12/1989), houve um "acordo de cavalheiros" entre as empresas para permitir à Skol a primazia no lançamento novamente. "Agora, está havendo uma briga de foice no escuro para ver quem lança em segundo lugar", acrescentou o jornalista.

Seguindo a pista apontada por Vidor, a então repórter de Economia (hoje editora do caderno Morar Bem do jornal) Léa Cristina buscou os bastidores da chegada das novas latas aos país. O que havia de certo era que Brahma e Antarctica disputavam o vice-campeonato na apresentação da novidade; fora isso, deparou-se com versões conflitantes.

O diretor administrativo da Brahma, William Gregg, contou que a Reynolds International havia iniciado os contatos anos antes com a cervejaria. Mas a construção da fábrica de Pouso Alegre teria atrasado – de julho para outubro – e as cervejarias revisaram seus planos. Segundo a repórter, "alguns diretores da Brahma" chegavam a falar em acordo de exclusividade. O presidente da Reynolds International, Deoclécio Pignataro, negava qualquer arranjo nesse sentido, e disse que entregou os primeiros 18 milhões de latas dentro do prazo. Mas a falta de capacidade da empresa para atender a todos era o principal gargalo (com trocadilho).

O mercado de cerveja em lata, do qual a Skol detinha 80%, era de 250 milhões de latas por ano, e a de refrigerantes, de 275 milhões, segundo o texto de um box intitulado "Briga das latas só terminará em 1990" – referência ao ano seguinte, em que a Latasa alcançaria a produção dobrada que lhe permitiria atender a todos. Em 20 de dezembro de 1990, a Skol mais uma vez pode inaugurar uma embalagem, com o lançamento de sua Skolfest, um barril de alumínio de 5 litros de cerveja.

Nos Estados Unidos, as cervejarias artesanais aderem cada vez mais entusiasmadamente às latas. Cervejas artesanais com avaliações extremamente positivas, como a imperial stout Ten Fidy, da cervejaria Oskar Blues, a India pale ale Jai Alai, da Cigar City Brewing, e outras, existem somente em latas de alumínio. No Brasil, infelizmente, poucas se aventuraram, e ainda não houve uma cerveja notável nesta categoria.



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